“Quem não acredita não precisa acreditar. Quem venera tem o direito de venerar. E ambos precisam ter o direito de existir em liberdade.”
Esta é uma frase que enseja ensinamentos bíblicos, quanto cívico, amparada, protegida pela Nossa Constituição Federal, a Carta Magna do Brasil, em seu pleno exercício do Estado Democrático de Direitos. E claro, sem querer influenciar votos e ou posicionamentos, apenas requerendo bom senso, discernimento e respeito uns para com os outros.
Há momentos em que a política deixa de disputar apenas projetos de governo e começa a tocar aquilo que existe de mais íntimo no ser humano: a sua fé.
E talvez seja justamente aí que precisamos parar, respirar e pensar.
A recente polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida reacendeu uma antiga divergência entre católicos e evangélicos acerca de Maria, dos santos e das imagens religiosas. Não é uma divergência nova. Ela nasce de diferentes interpretações bíblicas e de diferentes tradições cristãs.
Para muitos evangélicos, a Bíblia é interpretada de modo a rejeitar a veneração de imagens, entendendo que determinadas passagens condenam sua utilização no culto. Para os católicos, porém, a imagem não é Deus, nem a estátua é objeto de adoração. Ela representa alguém cuja memória e fé remetem ao sagrado.
São compreensões diferentes. São imagens que também evangelizam.
E compreender essa diferença não deveria exigir que uma religião desqualificasse a outra.
Nossa Senhora Aparecida, para o catolicismo brasileiro, não é uma deusa. É Maria, Mãe de Jesus, venerada pelos católicos, e cuja imagem se tornou um dos maiores símbolos religiosos da história do Brasil.
Em 1930, Nossa Senhora Aparecida foi proclamada Padroeira do Brasil pela Igreja Católica. Esse reconhecimento pertence à tradição religiosa católica e não transforma a devoção mariana em obrigação para quem professa outra fé.
Quem não acredita não precisa acreditar.
Quem venera tem o direito de venerar.
E ambos precisam ter o direito de existir em liberdade.
E quanto a Jesus Cristo Ele já se faz presente no meio de nós, em santuários, simbolicamente nos cruzeiros de madeiro, nos ambientes das esferas que decidem a história do Brasil, como plenário, e Câmaras Estaduais e Municipais, todas as crenças e fé, dogmática ou não, bem como dentro de muitos lares brasileiros.
É exatamente aí que a nossa Constituição Federal deveria ser a grande mediadora de nossas diferenças: não dizendo em que devemos acreditar, mas garantindo a liberdade de consciência e de crença.
O que me preocupa, portanto, não é que católicos e evangélicos e qualquer outra doutrina e ou filosofia de vida pensem diferente.
O que me preocupa é quando essa diferença religiosa começa a ser utilizada como combustível eleitoral.
A história recente da política brasileira mostrou como a aproximação de Jair Bolsonaro com segmentos evangélicos se tornou parte importante e polêmica, em sua trajetória eleitoral, isso é fato, embora ele se identificasse publicamente como católico, e tantos outros seus antecessores manifestaram em algumas oportunidades pública, sua fé dogmática também, independe da política. Sua atual esposa, é evangélica, e o ambiente político da família manteve relações estreitas com lideranças desse segmento, isso também é fato, são escolhas de vida, normal!
Agora, em 2026, uma nova polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida tomou conta das redes sociais. Mas aqui precisamos ter cuidado com a verdade: não há registro de que Flávio Bolsonaro tenha prometido retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil, justiça seja feita. A informação que circulou e ganhou grandes proporções, foi desmentida por ele e identificada por veículos de checagem como falsa.
O fato verdadeiro, porém, é que existe um histórico anterior que ajuda a explicar por que o assunto encontrou terreno tão sensível: em 2007, o então deputado Victório Galli apresentou projeto relacionado à mudança do título de Nossa Senhora Aparecida; a proposta foi arquivada em 2008. Décadas depois, a antiga iniciativa voltou a aparecer no debate eleitoral de 2026, agora associada, sem comprovação, ao candidato Flávio Bolsonaro.
E é justamente nesse ponto que penso que precisamos separar fé de medo.
Nossa Senhora Aparecida não deveria ser transformada em instrumento para angariar votos.
Jesus Cristo também não.
Nem a Bíblia.
Nem a cruz.
Nem qualquer símbolo sagrado.
A fé pode iluminar a política quando inspira justiça, fraternidade, solidariedade e respeito à dignidade humana.
Mas quando é utilizada para construir inimigos, dividir brasileiros ou alimentar suspeitas religiosas, talvez estejamos nos afastando justamente daquilo que dizemos defender.
Sou católica.
Respeito minha fé e amo a vida que Nossa Senhora teve, enquanto por aqui na terra caminhou como Mãe, Mulher Veneranda.
Mas isso não me autoriza a dizer ao meu irmão evangélico no que ele deve acreditar.
Da mesma forma, a convicção de um evangélico não lhe dá o direito de apagar aquilo que é sagrado para um católico.
Talvez esta seja uma das grandes provas da democracia:
aprender a conviver com aquilo em que o outro acredita sem precisar destruir aquilo em que nós acreditamos.
Porque, no fim das contas, quando a fé vira arma de campanha, todos nós perdemos alguma coisa.
Inclusive a própria fé.
Enquanto discutimos símbolos religiosos como se fossem trincheiras eleitorais, há um Brasil inteiro esperando que seus candidatos debatam aquilo que realmente poderá mudar a vida do povo.
“Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei.”
By MângelaCastro 30/9/2026
