"A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." (Romanos 5,5)
Há escritos que o tempo não apaga. Apenas lhes acrescenta significado. Hoje compartilho uma página do meu caderno de 1983, onde a esperança já aprendia a florescer. 🌿
Assim nasceram, Joias do Baú das Memórias
Olá, queridos e queridas.
Hoje tomo a liberdade de compartilhar um pouco da minha intimidade. Lá nos idos de 1983, jovem ainda, com muitos sonhos e desejos à flor do coração, a vida parecia florescer ao meu redor. Uma nova etapa estava nascendo. Recém-casada e, em meio às incertezas do futuro, escolhi viver apenas aquele sutil momento.
Quantas tardes primaveris já vivenciei ao longo da vida! Neste meu entardecer da idade, muitas ficaram para trás, mas uma, em especial, permaneceu guardada na memória, preservada em uma simples folha de caderno.
Foi numa tarde de novembro, quando as emoções borbulhavam dentro de mim e tudo parecia querer brotar das profundezas da alma, que tive um encontro comigo mesma. Hoje, relendo essas singulares palavras, tenho a certeza de que, naquele instante, algo maior do que eu me impelia a tomar uma folha de papel para escrever.
Na verdade, isso já havia se tornado um hábito. Escrever era a maneira que encontrava para não somatizar tanto os desafios do dia a dia, afinal, quem não os tem? A diferença está em aprender a lidar com eles e procurar resolvê-los da melhor forma possível.
E, como uma suave brisa, um soneto brotou do meu coração. Parecia surgir dos recônditos adormecidos da alma como um sopro de esperança.
Serenidade... Era exatamente assim que eu me sentia naquele momento. Então escrevi:
No borbulhar da emoção,
expresso a alegria da paz.Meu corpo sereno
acalenta a mansidão
de um olhar lânguido,
de tristezas que jazem.E o soneto do sopro
da esperança; brota vívido.Sinto o beijo
da brisa suave
que me acaricia,acalenta, acalma a alma,
na gostosa tarde de primavera.
Chega de mansinho o desejo
de sonhos, e que sejam meigos,
de doces ilusões do amor,os quais, ali naquele momento,
viriam.Como na singeleza da vida,
na pureza de uma criança,que meu ser implorava
e sempre pedia...Não se perca da esperança!
Franca, 04 de novembro de 1983 – 14h35.
Relendo essas simples palavras, percebo quase um percurso interior. É como se eu saísse da agitação de um borbulhar de emoções e chegasse, passo a passo, à serenidade. O título, portanto, não é apenas um nome: é o destino do poema.
Ao revisitar meus guardados, hoje um pouco empoeirados, com folhas já amareladas pelo tempo, percebo o valor que cada uma delas carrega. Guardo-as com carinho, pois não são apenas lembranças: são as primeiras páginas de uma primavera interior.
Tudo começou com um conselho que recebi, por volta de 1975. Ao buscar alívio para as inquietações daquele tempo, um sacerdote, quase em segredo, me aconselhou:
"Escreva, Maria. Passe para um caderno, como se fosse um diário, os pensamentos que lhe chegam."
Foi assim que a jovem Maria começou a escrever para aliviar a alma, buscando respostas e tornando-se cúmplice de cada momento vivido.
Assim sigo ainda hoje: escrevendo. Agora, porém, compartilhando essas palavras com o sincero desejo de que elas também possam aliviar ou inspirar o coração de quem as lê.
É claro que, às vezes, as palavras podem incomodar. São como sementes sendo remexidas na terra que as abriga. Talvez, num primeiro momento, não façam sentido, pois cada leitura é profundamente pessoal. Muitas vezes questionamos; outras, como diz o jargão popular, "demora para cair a ficha". E isso faz parte, principalmente quando algo toca as profundezas da alma ou desperta sentimentos que permaneciam escondidos — por medo, insegurança ou simples necessidade de proteção.
Cada um possui seu tempo interior.
Mas chega o momento em que é preciso permitir que as emoções floresçam, como flores de um jardim. Algumas trazem espinhos; outras exalam perfumes delicados. Assim como nós possuímos nossa própria identidade, elas também possuem sua própria tonalidade, sua beleza e sua razão de existir. Também isso faz parte da lei natural da autopreservação e evolução natural de todas as coisas sob a Onisciência de Deus - (Isaías 46:9-10:). O importante é cultivar nossos jardins interiores, respeitando os divisores de águas que a própria vida nos apresenta.
E isso, minha amiga, meu amigo, pode ser apenas um desenrolar do tempo. Não porque algo tenha deixado de amadurecer, mas porque ainda repousa no aconchego da alma, maturando silenciosamente, como um bom vinho preservado nos tonéis da vida.
Hoje vivo o entardecer da idade, mas continuo preservando o doce sabor da esperança que já habitava aquela tarde de 4 de novembro de 1983.
Ela permanece jorrando palavras como a nascente que desce pelas encostas, regando as sementeiras e conduzindo as águas da vida. Às vezes serenas, outras vezes turbulentas, como um vendaval, mas sempre seguindo seu curso natural, até encontrarem, um dia, o grande oceano da Vida... onde, enfim, todas as almas encontrarão a cura. Posto que, sem perder a esperança, acreditemos que: ___
"Na velhice darão ainda frutos, serão viçosos e florescentes."
Salmo 92,14
Paz e Bem.
By MângelaCastro — 24/07/2026
