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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O HOMEM DE VERDE

Um verde, uma energia de esperança... ou apenas um sonho?


Caríssimos,

hoje venho com um tema talvez meio que “embolando o meio de campo” — coisa que, convenhamos, não é novidade por aqui. 😊

Mas, no meu ponto de vista, há experiências que merecem ser olhadas com um pouco mais de atenção, não necessariamente para encontrarmos uma explicação definitiva, mas para percebermos o que elas despertam em nós.

Há poucos dias, tive um sonho muito curioso.

Eu estava em um ambiente simples, parecido com um lugar de refeições. Havia ali um pequeno palco, onde acontecia algo semelhante a um concurso de canto.

Foi quando subiu ao palco um jovem, aparentando pouco mais de vinte anos. Cabelos pretos, lisos, meio de franja, sorridente.

Começou a cantar.

A música era suave, lembrava uma mistura de samba-canção com sertanejo, um pouco triste, mas muito poética.

E havia algo ainda mais curioso: enquanto ele cantava, frases apareciam escritas no ar. Foram três. Eu as lia e compreendia perfeitamente naquele momento, mas, ao despertar, não consegui recordar nenhuma delas.

O rapaz, entretanto, desafinou.

Sua voz não foi aprovada.

Percebi que ele ficou triste, preocupado, talvez envergonhado.

E eu, que estava assistindo, corri em sua defesa. Disse que ele poderia cantar novamente, pois talvez estivesse nervoso, e isso era perfeitamente compreensível.

Foi então que ele veio em minha direção.

O homem de verde

Quando chegou perto, eu o vi muito grande diante de mim.

Vestia uma blusa verde-folha e, sobre os ombros, trazia uma echarpe retorcida, também verde, mas em uma tonalidade mais clara.

E então aconteceu uma cena que ficou muito viva em minha memória.

Ele colocou sobre o próprio peito, com uma esponja, talco branco.

Eu vi o gesto.

E daquele talco exalava um delicado perfume de bebê.

Não foi apenas uma sensação vaga de perfume. Eu vi de onde ele vinha, acompanhei o gesto e senti o aroma no ar.

E, quando o sonho parecia chegar ao fim, aconteceu algo ainda mais curioso.

Ouvi alguém chamar:

“Luiz!”

Como se estivesse chamando aquele rapaz.

Como se dissesse: já é hora de irmos embora.

Foi essa voz que me despertou.

E aqui está talvez uma das partes que mais me intrigam: o sonho terminou justamente com um chamado para despertar.

Primeiro, o perfume.

Depois, a voz.

Primeiro, algo que eu não podia segurar, mas podia sentir.

Depois, uma palavra que eu podia ouvir.

E então acordei.

Não sei quem era aquele Luiz.

Não sei se o nome nasceu de alguma associação da minha própria mente, de alguma lembrança guardada ou até mesmo de algum estímulo que meu cérebro incorporou ao sonho.

Também não preciso transformar isso em uma mensagem sobrenatural.

Mas posso reconhecer a força simbólica da experiência.

Porque, no fim das contas, o sonho inteiro parece ter caminhado para uma única palavra:

DESPERTAR.

O verde que continuou depois do sonho

Na manhã seguinte, assistindo à Missa, aconteceu algo que me chamou particularmente a atenção.

Sem que eu tivesse contado publicamente sobre o sonho, meus olhos encontraram diante de mim justamente duas tonalidades de verde: o sacerdote com um verde mais oliva e o ministro, que normalmente vejo de branco, com um verde mais vivo, quase verde-folha fechado.

Atrás deles, o vitral do altar ainda reunia outras cores — azul, verde, amarelo e vermelho — compondo uma cena que, para mim, parecia continuar visualmente aquilo que havia acontecido durante a madrugada.

Claro: aqui não era sonho.

Era a Missa.

E a cor verde, na liturgia daquele dia, não era uma novidade nem uma mensagem particular dirigida a mim. É a cor própria do Tempo Comum.

Ainda assim, meus olhos foram imediatamente atraídos por ela.

E talvez seja justamente isso que me interessa.

Coincidência não precisa virar presságio para ser significativa.

Pode ser apenas uma coincidência.

Pode ser uma associação produzida pela própria mente depois de um sonho marcante.

Pode ser uma daquelas sincronicidades às quais atribuímos significado subjetivo.

E, dentro da minha experiência de fé, também posso recebê-la simplesmente como uma pequena delicadeza de Deus.

**Não preciso decidir o que foi.

Posso simplesmente acolher o que despertou em mim.**

A Palavra que encontra a vida

Naquela manhã, a liturgia trazia Ezequiel 34,1-11, o Salmo 22(23) e o Evangelho de Mateus 20,1-16a.

Na primeira leitura, Deus critica os pastores que não cuidaram das ovelhas e afirma que Ele próprio irá procurá-las e cuidar delas.

O Salmo nos conduz aos “prados e campinas verdejantes”.

E, no Evangelho, Jesus conta a parábola dos trabalhadores da vinha, concluindo com aquela pergunta que havia ficado ecoando em mim:

“Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?”
(Mateus 20,15)

Talvez a Palavra não esteja falando apenas de religião no sentido em que tantas vezes reduzimos a experiência religiosa.

Quando alguém começa a prestar verdadeira atenção aos ensinamentos de Jesus, pode acontecer algo muito maior: começa a questionar, a refletir, a perceber suas próprias escolhas, seus comportamentos, suas contradições.

Começa, talvez, a despertar.

E eu gosto de pensar nesse despertar não como uma imposição externa, mas como um movimento interior.

Se nossos sonhos são, em alguma medida, atravessados por lembranças, emoções, experiências e pensamentos acumulados ao longo dos dias, talvez também precisemos, de vez em quando, permitir que nossa mente faça uma espécie de arrumação interior: guardar aquilo que aprendemos, rever aquilo que fizemos, reconhecer o que precisamos mudar e preservar aquilo que nos fez crescer.

Aí pode nascer uma espécie de sabedoria de vida.

Um despertar real.

Porque de pouco nos adianta simplesmente passar pela vida como consequências automáticas de nossas escolhas, atitudes e ações.

Viver talvez exija algo mais.

Exige presença.

Exige reflexão.

Exige responsabilidade.

Exige aprender a escolher.

Exige também um desapegar-se.

Fé também é despertar

É aqui que me lembro de João 11.

Na passagem de Lázaro, Jesus conduz Marta para além daquilo que seus olhos conseguem compreender naquele momento. Ele a leva a olhar para a fé como algo vivo, capaz de transformar a maneira de enxergar a própria existência.

Não se trata apenas de acreditar que algo extraordinário acontecerá.

Talvez seja também aprender a enxergar de outra maneira.

E isso me faz pensar no poder da fé nos dias atuais.

Às vezes tenho a impressão de que sua chama se parece com uma estrela cadente: surge brilhante no céu, desperta nossa atenção e, pouco depois, vai desaparecendo.

Mas talvez a fé não tenha sido feita para ser apenas um clarão passageiro.

Talvez seja uma energia interior que precisa ser alimentada.

Uma energia que não nos tira da realidade, mas nos devolve a ela com mais consciência.

Uma espécie de energia da esperança — uma chama interior que não destrói, mas mantém viva em nós a possibilidade de recomeçar.

E talvez seja esse um dos mistérios da fé.

A liberdade começa por dentro

Foi também pensando nisso que me lembrei das palavras de Jesus em João:

“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
(João 8,32)

Para mim, essa liberdade começa quando passamos a olhar para dentro de nós mesmos.

Quando refletimos sobre nossas ações.

Quando aprendemos a reconhecer nossas limitações.

Quando sabemos desejar — e também discernir aquilo que desejamos.

Quando compreendemos que não podemos colocar continuamente sobre o outro a responsabilidade pelas escolhas que também nos pertencem.

Liberdade não significa fazer tudo o que queremos.

Talvez signifique justamente aprender a escolher melhor.

Filtrar.

Ponderar.

Recomeçar.

Errar menos, não porque finalmente nos tornamos perfeitos, mas porque começamos a aprender com aquilo que fazemos.

Talvez tenha sido esse o mundo que tantos sábios desejaram para os homens e mulheres de seu tempo — e que Jesus, à sua maneira, anunciava: um mundo no qual a justiça, a bondade, o equilíbrio e o amor não fossem apenas palavras, mas experiências concretas de vida.

E então volto ao homem de verde...

O jovem do meu sonho não cantou perfeitamente.

Desafinou.

Mas isso acabou sendo apenas um detalhe.

O que me chamou a atenção foi outra coisa:

alguém estava prestes a ser julgado pelo resultado, e eu me preocupei com a pessoa.

Talvez seja essa a parte do sonho que mais merece permanecer comigo.

O verde pode ser esperança.

Pode ser vida.

Pode ser renovação.

Pode ser apenas uma cor que minha mente escolheu durante o sonho.

E pode ser tudo isso ao mesmo tempo, sem que eu precise transformar nenhuma dessas possibilidades em certeza.

E há algo ainda mais curioso.

Depois de tudo o que pensei sobre o verde, minha mente chegou até mesmo ao chamado “hidrogênio verde”, a energia do futuro tão discutida nos debates ambientais e na COP30.

Nossa! Viajei longe aqui, não? 😋

Melhor dar um pequeno retrocesso de tecla, como fazíamos nos antigos gravadores de mão dos anos 60. Alguém lembra? 😊

Porque talvez esse assunto fique para outra conversa.

Por enquanto, prefiro permanecer no verde do sonho.

No verde da esperança.

No verde que meus olhos encontraram naquela manhã.

No verde que me fez pensar.

Afinal, o que significa despertar?

Talvez seja essa a pergunta que ficou comigo.

Despertar para aquilo que sentimos.

Despertar para aquilo que pensamos.

Despertar para o outro.

Despertar para nossas escolhas.

Despertar para a própria vida.

Talvez estejamos vivendo em uma época em que muitos de nós permanecemos fisicamente acordados, mas emocionalmente, espiritualmente e até intelectualmente adormecidos.

E talvez a fé, quando verdadeiramente vivida, não seja uma fuga da realidade.

Talvez seja justamente um convite para acordarmos para ela.

O sonho não precisa ser uma previsão.

O verde não precisa ser um código.

Luiz não precisa necessariamente representar alguém.

As três frases que li no ar talvez nunca voltem à minha memória.

E tudo bem.

Porque talvez o sonho não tenha vindo para me entregar respostas prontas.

Talvez tenha vindo para me deixar uma pergunta.

E, naquela manhã, a realidade simplesmente continuou a conversa.

Então me pergunto:

Por que, entre tantas coisas que vejo numa Missa, meus olhos foram imediatamente atraídos pelo verde?

Será esperança de dias melhores?

Será simplesmente porque o sonho havia colocado aquela cor em evidência dentro de mim?

Ou será que, por alguns instantes, minha própria mente estava me ensinando a prestar atenção àquilo que antes passava despercebido?

Não sei.

E talvez eu nem precise saber.

Porque talvez não seja a resposta que esteja acontecendo diante dos meus olhos.

Talvez seja uma pergunta que o sonho deixou dentro de mim — e que a manhã veio iluminar. 🌿

MângelaCastro - 21/8/2026
Paz e bem.
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Enviado por MângelaCastro em 21/08/2026
Código do texto: T8701855
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O HOMEM DE VERDE

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