Quando a escuridão cai sobre nós...
Era exatamente 00h45. Permanecia na sala assistindo a uma série sobre a tentativa de reflorestar Marte — hoje um planeta árido, vermelho como ferrugem, coberto por rochas que parecem guardar a memória silenciosa de um tempo em que talvez tenha existido vida.
Enquanto acompanhava aquela impressionante demonstração da inteligência humana, uma pergunta insistia em nascer dentro de mim.
Quanto esforço, quantos recursos, quanta dedicação para buscar, a bilhões de quilômetros da Terra, um lugar onde um dia talvez possamos viver... Não seria mais sábio concentrar parte dessa mesma capacidade em preservar o extraordinário planeta que já nos foi confiado?
A própria série mostrava uma verdade incontestável: sem água pura, sem oxigênio, sem equilíbrio, a vida simplesmente não floresce.
Mas, enquanto esses pensamentos percorriam o universo, outro universo ocupava meu coração.
Meu filho ainda não havia chegado em casa.
Como toda mãe, entreguei-o em oração, pedindo aos bons espíritos e aos anjos de Deus que os acompanhassem pelo caminho. Contudo, embora orasse, meu coração insistia em permanecer inquieto. Eu queria notícias. Queria certezas.
Somente pela manhã percebi algo quase constrangedor.
A mensagem que tanto aguardava já estava ali, havia horas.
___"Já em casa."
Passei boa parte da noite consumindo energias em preocupações que já não correspondiam à realidade. A resposta existia; era eu quem não conseguia enxergá-la, porque o medo havia ocupado o lugar da serenidade.
Foi então que compreendi que, muitas vezes, fazemos o mesmo com a própria vida.
O futuro nos assusta tanto que deixamos de perceber as respostas que Deus já colocou diante de nós.
Gastamos forças tentando controlar o amanhã, enquanto a paz nos espera discretamente no presente.
Talvez a verdadeira restauração que buscamos não esteja em Marte, nem em qualquer outro lugar distante.
Talvez ela comece dentro de nós.
Confiar também é uma forma de sabedoria.
Enquanto houver vida, haverá esperança.
Enquanto repousamos, Deus continua velando por Sua criação.
E, assim como inspirou homens e mulheres a protegerem a Terra através da ciência, das plataformas espaciais, da pesquisa e do conhecimento, também inspira aqueles que silenciosamente cuidam da vida em todas as suas formas.
Os verdadeiros anjos da guarda talvez sejam muitos: os que oram, os que amam, os que preservam a natureza, os que pesquisam, os que socorrem e todos aqueles que, iluminados pela Providência Divina, trabalham para que a esperança jamais deixe de existir.
Naquela madrugada compreendi que a confiança também precisa ser exercitada.
Nem sempre é a ausência de respostas que nos faz sofrer.
Às vezes, é o excesso de preocupações que nos impede de perceber que elas já chegaram.
E, diante disso, a pergunta continua ecoando dentro de mim:
Vale mesmo a pena viver aprisionados pelos temores do futuro, quando a vida nos convida, a cada amanhecer, a confiar um pouco mais no amor e na providência Divina?
Uma coisa, porém, trago comigo como certeza: somos seres humanos, eternos buscadores. Não sossegamos enquanto não alcançamos aquilo que acreditamos ser o melhor para nós, custe o que custar. Talvez seja justamente essa inquietação que impulsione as grandes descobertas da humanidade, e a exercitar mais a fé (esperança). O verdadeiro desafio, entretanto, está em discernir se nossa busca nos aproxima da sabedoria ou apenas nos afasta da paz que já habita em nosso interior.
By MângelaCastro - 05/07/2026