“Que tenhamos sempre a humildade de aprender, a coragem de pensar e a delicadeza de respeitar.”
Assim pensando, chego hoje com um desejo enorme de iniciar esta manhã abraçando afetuosamente cada pessoa que, amorosamente, chega por aqui.
Sinto o mundo carente de afeto, de aproximações mais leves, de gestos que nos devolvam um pouco da ternura tantas vezes sufocada pela correria cotidiana, e divergências de pensamentos, a princípio tão normais, desde que sob precisa medida.
São tantos acontecimentos, tantas informações, boas e não tão boas, que têm "pipocado" em nosso meio social, provocando inquietações e exigindo de nós constantes adaptações. É como se novas acomodações sensoriais e reformas interiores e exteriores estivessem, pouco a pouco, nos burilando.
E, nesse movimento de tantas transformações, desejo que minhas palavras cheguem até você como o sol que nos ilumina e aquece, a poesia que suaviza os caminhos e a inspiração que nos convida a olhar a vida com mais carinho.
Seja pois, muito bem-vindo, bem-vinda!
Sempre considerei importante tirar minhas dúvidas, porque as tenho, estudar as Escrituras, seus quatro Evangelhos e os ensinamentos que atravessaram gerações, embora não seja eu uma assídua estudante rs, mas sempre que preciso me apoio nas ferramentas de pesquisas confiáveis, hoje, a tecnologia nos ajuda bastante. Nada contra aqueles que dedicam seus estudos exclusivamente aos textos bíblicos e com seus grupos de forma presencial fisicamente. Entretanto, acredito que existe uma riqueza extraordinária quando procuramos compreender também o contexto histórico e cultural no qual foram escritos, aí, precisamos nos munir da tecnologia, rápida e bem completa.
Ao estudarmos as Escrituras, é importante considerar não apenas os versículos, mas também o contexto histórico, social e cultural em que foram escritos. Afinal, os ensinamentos atravessaram séculos, diferentes idiomas e sociedades, chegando até nós por meio de traduções e interpretações que merecem ser compreendidas com atenção.
Não se trata de questionar a fé de ninguém, tampouco de desconsiderar os conhecimentos daqueles que dedicam sua vida ao estudo bíblico. Trata-se de ampliar nosso olhar, compreendendo que nem todos os costumes de uma sociedade antiga representam, necessariamente, princípios que devam ser reproduzidos em nossa contemporaneidade.
Afinal, existe uma diferença entre preservar a essência de um ensinamento e reproduzir literalmente os hábitos de uma época. A mensagem de Jesus permanece, mas nossa compreensão sobre a dignidade humana, as relações sociais e a justiça também precisa amadurecer.
Estudar, perguntar e contextualizar não significa contestar por contestar. Significa buscar compreensão, com humildade para reconhecer o que ainda não sabemos e liberdade para refletir sobre aquilo que aprende
Um exemplo que sempre me chamou a atenção é a maneira como Maria Madalena foi apresentada durante séculos.
MARIA MADALENA: A MULHER POR TRÁS DAS INTERPRETAÇÕES
Quantas vezes ouvimos referências a Maria Madalena como a prostituta que se arrependeu de seus pecados após conhecer Jesus?
Entretanto, quando voltamos aos Evangelhos, encontramos uma realidade diferente: não existe identificação bíblica de Maria Madalena como prostituta. Por que falo sobre essa caracterização da Mulher de forma discriminatória, preconceituosa? Porque as vezes ainda ouço de alguns cristãos se referirem a ela, como prostituta, embora a Igreja Católica tenha abolido o termo "prostituta" para se referir a Maria Madalena, isso aconteceu em 1969, quando o Papa Paulo VI confirmou que ela não era uma prostituta, mas sim uma discípula fiel de Jesus. Essa confusão surgiu de interpretações errôneas do Novo Testamento, onde Maria Madalena é frequentemente associada a outras mulheres descritas como pecadoras. O Papa Gregório Magno, em 591 d.C., também contribuiu para essa imagem equivocada, mas a Igreja reconheceu oficialmente sua verdadeira identidade em 1969, destacando sua importância como apóstola e testemunha da Ressurreição.
Lucas 8,1-3 apresenta Maria Madalena entre as mulheres que acompanhavam Jesus e contribuíam para o sustento de seu ministério com seus próprios recursos. Maria Madalena, era originária de uma família abastada e trabalhava por conta própria para se manter, muitas vezes, lendo documentos e cartas para algumas autoridades, que não tinham o conhecimento da leitura, como por exemplo o governador na época, Pôncio Pilatos. Lucas também relata que dela haviam saído sete demônios (isso na forma pensamento dos cristãos lá nos idos de Jesus, tinham ainda muitas dificuldades nas tratativas, principalmente com as mulheres, e claro, com a aproximação de Maria Madalena de Jesus, tornou-se visível com seus convivas, a sua transformação moral, e gratidão pela acolhida, e sua salvação de uma sociedade castradora, limitadora, claro, nesse ínterim, ela foi abolindo seus pecados, seus erros, foi se lapidando conforme os ensinamentos amorosos e sábios de Jesus.
A mulher pecadora que unge os pés de Jesus, em Lucas 7, não tem seu nome revelado. A associação posterior entre essas personagens contribuiu para a construção de uma imagem que acabou marcando a memória religiosa de Maria Madalena.
Hoje, inclusive, a própria Igreja Católica reconhece sua importância como discípula e testemunha da Ressurreição.
Veja, não precisamos inventar uma biografia para reconhecer sua grandeza. O que os Evangelhos já nos apresentam é extraordinário: uma mulher que permaneceu próxima de Jesus, acompanhou os acontecimentos de sua Paixão e foi anunciadora da Ressurreição.
O CONTEXTO HISTÓRICO NÃO É UMA DESCULPA PARA PERPETUAR ERROS.
Precisamos compreender que Jesus viveu em uma sociedade profundamente patriarcal, com costumes, leis e relações de poder muito "diferentes das nossas", embora também nós mulheres passamos por um período patriarcal, quando moças de "boa família", eram preparadas para serem boas esposas, mães, foram educadas para o lar, só a partir dos anos 1827, uma parte da sociedade claro, começou a se ingressar na escola, a educação voltada às mulheres era exclusivamente dirigida aos cuidados com o lar e às famílias. No Brasil Colônia, persistiam as influências de Portugal, que em uma de suas leis estabeleceu as pessoas do sexo feminino como imbecilitus sexus (sexo imbecil), grupo ao qual ainda pertenciam as crianças e doentes mentais. Mas graças a Deus, a terra é um planeta em constante transformação e evolução cultural, e fomos nos libertando pouco a pouco de culturas arcaicas, patriarcais, embora o machismo ainda persiste assombrar nós mulheres nos dias atuais.
Mulheres tinham sua autonomia limitada, enfrentavam restrições sociais e religiosas e, muitas vezes, eram submetidas a julgamentos muito mais severos do que os homens.
A existência de determinados costumes naquela sociedade não significa que devam ser reproduzidos em nossa época, seria regredir no tempo, em verdade, precisamos ajudar as culturas que ainda insistem em manter mulheres cativas, desrespeitadas em sua dignidade humana, a se libertarem, porque ainda existe e resiste ao tempo.
Afinal, contextualizar não é desrespeitar as Escrituras. É procurar compreender o significado de seus ensinamentos sem confundir a realidade cultural de dois mil anos atrás com as responsabilidades humanas de hoje.
E aqui faço uma pergunta: será que estamos realmente aprendendo com Jesus quando reproduzimos preconceitos e desigualdades que sua própria mensagem de amor, misericórdia e acolhimento nos convida a superar?
A FÉ TAMBÉM PRECISA CAMINHAR COM O CONHECIMENTO.
Ao longo da história, os textos religiosos foram transmitidos, copiados, traduzidos e interpretados em diferentes idiomas e culturas. Por isso, estudar os manuscritos antigos, conhecer a história dos primeiros cristãos, primeiras comunidades, e compreender as diferentes correntes filosóficas e religiosas não diminui a fé. Pode, ao contrário, ampliar nossa compreensão.
Não precisamos abandonar nossas convicções para fazer perguntas. Tampouco precisamos transformar nossas perguntas em verdades sem comprovação.
Platão, Aristóteles, Orígenes, os essênios, os primeiros cristãos e tantos outros personagens da história do pensamento humano merecem ser conhecidos dentro de seus respectivos contextos.
O conhecimento não precisa ser uma ameaça à fé. A ignorância, sim, pode nos impedir de compreender aquilo que professamos.
E, particularmente, não acredito que devamos utilizar os ensinamentos de Jesus para justificar práticas de discriminação, violência ou submissão feminina.
A mensagem cristã precisa produzir frutos em nossas relações contemporâneas, respeitando a dignidade de homens e mulheres, sem transformar costumes, e culturas antigos em justificativas para injustiças atuais.
UMA REFLEXÃO PARA O NOSSO TEMPO
Jesus não nos deixou apenas palavras para serem repetidas. Deixou ensinamentos para serem compreendidos e praticados.
Que saibamos estudar sem preconceitos, acreditar sem deixar de questionar e, sobretudo, compreender que a verdadeira sabedoria não está em conhecer todos os versículos, mas em permitir que seus ensinamentos transformem nossas atitudes cotidianas.
Que a fé não nos impeça de aprender, que o conhecimento não nos afaste da humildade e que jamais percamos a capacidade de reconhecer a dignidade humana no outro.
Que Jesus continue sendo nossa inspiração para uma vida de amor, justiça e misericórdia, sob as bênçãos de Nossa Senhora.
"Humildade não é silenciar o pensamento, assim como liberdade não é impor nossas convicções. É possível respeitar a fé e as ideologias do outro sem renunciar à própria capacidade de refletir."
Paz e Bem!
By MângelaCastro - 02/11/2026
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