Bom dia caríssimos e diletos amigos leitores.
Nesta manhã, achei bem interessante, quando uma pergunta aparentemente simples me veio ao pensamento, sobre algo em que acredito que quase nunca pensamos, embora faça parte da nossa cultura, da nossa casa e da nossa própria intimidade, e até mesmo citada em algumas passagens das escrituras:
Afinal, por que portas em nossas casas?
Há portas que fechamos para proteger nossa intimidade. Há outras que precisamos abrir para acolher o amor.
Mas existe uma porta diante da qual alguém simplesmente bate... e espera.
Hoje uma lembrança antiga me fez pensar nisso. Coincidência? Talvez. Eu prefiro chamar de providência.
E você: o que existe do outro lado da sua porta?
Há manhãs em que o céu amanhece nublado, e nós quase sentimos falta da claridade. Mas talvez até as nuvens tenham sua razão de existir. Precisávamos de chuva para lavar o ar empoeirado, aliviar a terra e levar consigo um pouco das fumaças que ainda insistem em permanecer sobre nós.
E, olhando para uma manhã assim, pensei nas portas.
Apocalipse 3,20 nos apresenta uma das imagens mais delicadas das Escrituras:
“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo.”
Jesus não abre simplesmente a porta e entra.
Ele bate.
Há uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Uma porta existe para separar, proteger, guardar aquilo que está dentro. Desde muito cedo aprendemos que nossa casa é o lugar onde podemos repousar, silenciar, estar com os nossos e, algumas vezes, simplesmente estar conosco.
Fechamos uma porta não necessariamente porque rejeitamos o mundo, mas porque também precisamos de um espaço interior onde possamos respirar, resguardar nossa intimidade.
Há momentos em que precisamos da porta fechada. É uma atitude não só de adultos, mas também de adolescentes, os quais tomam para si, e alguns pais se preocupam. Normal.
E tudo bem.
Precisamos de limites. Precisamos de privacidade. Precisamos daquele pequeno território de silêncio onde ninguém entra sem ser convidado. E aqui pode refletir também a porta do nosso eu interior, do nosso coração, onde pulsam nossas emoções.
Talvez por isso a imagem de Jesus batendo à porta seja tão bonita.
Ele não invade.
Ele espera.
Ele se coloca do lado de fora e deixa que a decisão de abrir venha de quem está dentro.
E talvez essa seja também uma das mais belas lições de convivência e educação, que podemos aprender: amar alguém não nos dá o direito de invadir sua intimidade.
Toda casa tem um senhor.
Todo coração também.
Há portas que somente o próprio dono pode abrir.
E quando pensamos nisso, percebemos que a porta do coração humano pode ser ainda mais delicada que a porta de uma casa. Ali estão nossas lembranças, nossos medos, nossas alegrias, nossas dores, nossos sonhos e tudo aquilo que nem sempre conseguimos explicar.
Por isso, quem ama, e diz respeitar o próximo, não "arromba" portas, às vezes somos por demais ansiosos. (A não ser claro, em alguma situação física, que foge do total controle emergencial, diga-se de passagem.)😐
A princípio, é simples assim:
Bate.
Espera.
Respeita.
E, quando é recebido, entra com cuidado.
Jesus faz exatamente isso.
Ele deseja sentar-se à nossa mesa, participar de nossa intimidade, cear conosco. Não como um estranho que chega impondo sua presença, ou insistindo quando bate e do outro lado da porta apenas se silencia, mas, se bate, não se obtém resposta, simplesmente espera, e ou volta depois, faz como Amigo que espera o convite.
E há ainda outra porta nas Escrituras: a porta estreita de Lucas 13. Uma porta que nos recorda que entrar ou não, exige escolha, responsabilidade, transformação, respeito, discrição. Não basta desejar atravessá-la; é preciso preparar o coração para aquilo que existe do outro lado.
Talvez porque toda porta verdadeira seja também uma passagem.
Quando abrimos uma porta, alguma coisa muda.
Do lado de fora pode estar o desconhecido.
Do lado de dentro, aquilo que conhecemos, ou não.
E entre os dois existe uma escolha.
Mas por que, afinal, pensei justamente hoje nesse assunto?
Há algum tempo, recordei uma história contada por uma pessoa da família. Sua avó teria sido encontrada já sem vida, caída entre o lado de dentro e de fora da porta, ou seja, exatamente no meio.
E, se minha memória não me trai, havia em suas mãos algo parecido com um bilhete, uma anotação relacionada justamente àquele momento, e que se referenciava o "outro lado da porta".
Não me recordo de todos os detalhes e, por isso, não quero acrescentar à história aquilo que já não consigo afirmar com segurança.
Mas aquela lembrança ficou em algum lugar da minha memória.
E hoje, sem que eu estivesse procurando por ela, voltou.
Foi então que pensei: talvez algumas lembranças não desapareçam; apenas aguardem o momento de voltar à nossa consciência.
Não sei se devemos chamar tudo de coincidência.
Eu, particularmente, prefiro concordar e aceitar como providência.
Não necessariamente porque tudo tenha sido previamente determinado, mas porque a vida, às vezes, coloca diante de nós uma lembrança, uma palavra, uma imagem ou uma pergunta que nos convida a olhar novamente para alguma coisa.
E foi assim que cheguei à porta.
A uma porta física.
À porta de uma casa.
À porta de uma cidade, ou uma porta no céu, como tantas vezes aparece nas Escrituras.
E, sobretudo, à porta do coração.
O Salmo 118,19-20 também nos conduz à imagem dos portões:
“Abri-me os portões da justiça; entrarei por eles e darei graças ao Senhor.”
Que bela imagem para uma vida inteira.
Portas, portões, janelas, tramelas, chancelas, que se abrem para a justiça, para a verdade, para o amor, para a reconciliação, para o respeito da intimidade, um silenciar, e ou simplesmente não abrir a porta, escolhas.
Mas também portas que precisamos aprender a manter fechadas quando aquilo que vem de fora ameaça a paz que Deus nos confiou.
Talvez maturidade seja justamente aprender a diferença entre uma porta fechada por medo, por necessidade, e uma porta fechada por sabedoria.
Porque existem portas que precisam permanecer fechadas.
Outras precisam ser abertas.
E há aquelas diante das quais alguém permanece silenciosamente esperando.
Quem sabe, nesta manhã nublada, Jesus esteja novamente do outro lado de alguma porta nossa.
Não para forçar passagem.
Apenas para bater.
E esperar.
Assim seja. E assim permaneça em nós a boa convivência: com Deus, conosco mesmos e com aqueles que caminham ao nosso lado.
Paz e Bem.
By MângelaCastro - 10/9/2026
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