Uma conversa silenciosa com a alma... Entre o efêmero e o que permanece.
Estive conversando com uma amiga de adolescência e hoje já em nossa maturidade, também escritora de suas memórias e sentimentos, falávamos sobre um dos meus textos, que leu, e me disse: ___ tem momentos que parecem poesia, passando sentimento espiritual, convidando à reflexão, um desabafo, ou tudo alinhado. É isso, há autores que contam histórias, e há outros que em tênues e simples poemas, recolhem pedaços do existir — quase como quem junta folhas secas guardadas dentro de livros antigos para descobrir o perfume do tempo. Meus escritos caminham muito por aí.
Ao reler esta reflexão de 2023, vejo uma mulher debruçada na janela da própria vida, observando o movimento do mundo sem muita pressa de acompanhá-lo.
Do meu sentimento espiritual, recordo um romance de Chico Xavier belíssimo, e muito forte, que narra a vida de Jesus, e particularmente com personagens também importantes de sua comunidade: "Há dois mil anos", que independente de nossa religiosidade, deveríamos ler.
Nesse romance, quando Jesus já está na cruz no monte do Gólgota a esposa de um senador, do poder romano, tinha o hábito de se desfragmentar da sua identidade como esposa de um político, se vestindo como uma de suas amas, e se dirigia aos encontros com Jesus, só para lhe ouvir as palavras de ternura que a cativou.
E foi em um dado momento da crucificação de Jesus, já quase ao final da tarde, que ela se debruça na janela e olha em direção ao monte, com um misto de sentimentos: entristecido e amoroso, ela sente naquele momento, no fundo de sua alma, que o seu olhar se encontra com o olhar triste e também amoroso de Jesus na cruz, é um momento enobrecedor, de almas afins que se abraçam com intuito do auxílio.
Talvez por isso me veja como mulher de fases, que às vezes sai — para cumprir deveres, visitar pessoas, enfrentar o cotidiano — e depois retorna ao seu abrigo interior, esse lugar silencioso onde pensamentos se assentam e a fé encontra morada. Mas nem sempre o caminho é de ida; por vezes a existência parece uma película antiga rodando ao contrário, e imagens, certezas, sonhos e dores voltam desordenados, obrigando-nos a revisitar quem fomos, e ao mesmo tempo nos revitalizar.
Talvez seja isso um desfragmento do ser: pequenos pedaços de nós espalhados entre perdas, esperanças, medo do efêmero, desejo de permanência e busca por algo eterno. Fragmentos que não desapareceram — apenas aguardavam ser reencontrados.