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Nem toda lama anuncia fim. Às vezes, é dela que Deus faz nascer o novo. E o tempo se abre como portal dentro de mim em flor ...
O dia já caminha para o fim.
E a saudade, na solitude do luar,
começa a nascer nesse peito calado.
Que apenas deseja sonhar...
Já não grita.
Agora apenas repousa.
ouvindo-se por dentro
o bater suave do coração.
Que descansa a dor do amor ...
Sem pressa. Sem barulho.
Escuto o som do silêncio lá fora,
enquanto dentro de mim, algo ainda aprende a aquietar.
(Eclesiastes 4: "Depois voltei-me, e atentei para todas as opressões e permiti que se fizeste formoso)" só pra mim...
No dia que partiu, permanece a esperança
daquilo que há de voltar renovado.
Nas águas escuras reluz a luz da lua,
como se viesse brindar a vida,
para que ela não se apague.
O sol foi passear longe dos meus olhos,
talvez regenerar-se…
Levou consigo a promessa simples dos ciclos:
ir, para poder voltar.
O dia escreveu-se em linhas tortas,
parte de uma história ainda inacabada.
Depois da prece, algo se acomoda em mim.
Tudo silencia.
E é então, no pântano,
que nasce ainda a flor.
Ali, entre raízes cansadas,
matéria envelhecida,
ranços e águas turvas,
acontece o milagre.
A chuva cai leve, mansa…
e não permite que o pântano seque,
assim como o amor impede que a alma endureça.
E dela, da lama,
brota outra vez a flor.
Talvez porque a justiça divina seja assim:
não elimina toda impureza do mundo,
mas concede que a pureza também habite nele.
Porque junto à degradação,
Deus reúne novamente a vida.
"O corpo é o ramo.
O espírito, a seiva.
E a alma"…
talvez seja o fruto amadurecendo entre tempestades.
Para Santo Agostinho, a alma é o sopro que anima o corpo;
o espírito, aquilo que torna eterno o pensamento,
a consciência e a razão.
Talvez por isso, mesmo nos terrenos mais alagados da existência, o invisível continue trabalhando.
E no pântano que muitos evitam,
Deus ainda permita flores.
15/05/2026
Enviado por MângelaCastro em 15/05/2026
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