O desespero até pode tomar poder.
Porque o tronco sangrava, vergava sob o peso da dor e parecia prestes a cair — sofre_dor. Porém, algumas verdades só são compreendidas quando o vendaval passa, e certas aves retornam ao lugar onde o amor permaneceu até o fim.
Há aves que permanecem no vendaval.
Há aves que partem.
E há aquelas que regressam quando o céu deixa de ameaçar.
Pedro talvez fosse destas.
Não foi escolhido porque nunca caiu, mas porque soube levantar-se de suas íntimas dores e voltar, carregando nos ombros o peso do próprio erro.
JESUS, naquele momento crucial, era a nossa própria humanidade, e para muitos dos seus, isso se tornava incompreensível, pelo muito que sabiam, mas Ele, o homem descido do céu, ao que parece, não edificava Seu Reino sobre homens impecáveis, mas sobre corações capazes de reconhecer a própria pequenez.
Porque quem nunca teve medo, pouco entende do medo alheio.
Quem nunca negou, talvez julgue depressa demais os que fraquejam.
Quem nunca fugiu desconhece a coragem silenciosa de voltar.
E Pedro voltou.
Voltou ao chamado.
Voltou ao amor.
Voltou à margem do lago.
Voltou ao olhar daquele Mestre que não perguntou sobre sua queda, mas apenas:
— Tu me amas?
Talvez ali, mais do que pedra, Pedro tenha se tornado abrigo.
Como árvore depois da tempestade.
Como galho firme.
Como ninho.
E ainda hoje ecoa no canto dos ventos a pergunta que insiste em atravessar os séculos:
— Tu me amas?
Foi refletindo sobre a fuga de Pedro — quando se esperava dele, por ser o mais velho entre os discípulos, o papel de sustenta_dor — que nesta manhã chuvosa, enquanto a terra molhada espalhava seu perfume e o vento suave adentrava a casa como quem traz lembranças antigas, meus olhos repousaram sobre uma árvore coberta não de frutos, mas de aves.
Ali pareciam encontrar descanso, até que um movimento repentino sacudiu seus galhos, como se um sopro mais forte anunciasse a chegada do inesperado.
Muitas levantaram voo.
Partiram depressa, talvez por instinto.
Talvez por medo.
Outras permaneceram agarradas ao galho, juntas, resistindo ao vendaval.
Assim imaginei os últimos instantes de JESUS.
Quando a tempestade da dor se aproximou da cruz, muitos dos que O seguiam se dispersaram. O medo tem passos rápidos quando a esperança parece fraquejar.
Alguns discípulos fugiram, esconderam-se dos abutres do julgamento e da perseguição.
Entre eles, Pedro — o homem que caminhou sobre as águas, mas afundou diante do medo; o homem que prometeu permanecer, mas negou por três vezes Aquele que amava.
Então surge a pergunta que atravessa o tempo:
Por que Pedro foi escolhido para sustentar a pedra fundamental da primeira comunidade?
Talvez porque JESUS não edificasse Seu Reino sobre homens perfeitos, mas sobre corações que conheceram a própria fragilidade.
Pedro fugiu no vendaval.
Mas voltou.
Há coragem em permanecer, como João, as mulheres e Maria aos pés da cruz.
Porém existe também uma coragem silenciosa em regressar depois da queda, carregando o peso da culpa e ainda assim aceitar o chamado novamente.
Porque quem nunca teve medo, pouco compreende o medo do outro.
Quem nunca caiu talvez desconheça a grandeza de levantar-se.
Pedro tornou-se pedra não por jamais ter rachado, mas porque suas rachaduras ensinaram misericórdia.
Talvez tenha sido por isso que JESUS, após a tempestade, não lhe perguntou sobre a fuga ou a negação.
Perguntou apenas:
— Tu me amas?
E naquela resposta simples nasceu algo maior que liderança:
Nasceu abrigo.
Como árvore depois do vendaval.
Como galho firme.
Como ninho para aves cansadas.
Talvez a fé madura não pertença apenas aos que nunca partiram, mas também aos que, feridos pelo medo, encontram forças para voltar ao galho da vida.
Porque algumas aves voam diante da tempestade…
Mas certas aves retornam.
E às vezes, são justamente elas que aprendem a acolher as que ainda procuram onde repousar.
Então concluo:
Nem toda ave que foge abandona para sempre o abrigo; algumas retornam quando descobrem que o amor permanece mesmo após a tempestade.
Voe, voe alto e rápido, mas, ao cansar-se de procurar abrigo, volte, porque sempre haverá uma ave aqui a te esperar ...