Entre a fé, a psicologia e o mistério, talvez a pergunta mais importante não seja “o que esse sonho quis me revelar?”, mas: “o que ele despertou em mim?”
É sabido que a Bíblia, a qual a vejo como um grande compêndio da vida, reunindo histórias, experiências, vivências, anúncios, profissões de fé, revela-nos alguns sonhos que vieram como profetizados pelo próprio Deus ao homem... Isso é certo.
Atos 2:17 menciona que, no fim dos tempos, os crentes terão visões e sonhos. "Nos últimos dias, diz Deus, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os jovens terão visões, os velhos terão sonhos".
Essa imagem que postei acima, me faz recordar um sonho que tive já algum tempo atrás, e realmente me deixou a pensar sobre ele, buscar mais informações a respeito, seu significado... O que minha mente tentou me informar? Ao contrário dessa imagem aqui postada, vi primeiro abrirem-se no céu dois portais, os quais haviam nele uma luz perene, e desses portais desceram por uma espécie de caminho rumo à terra, dois cavalos, ambos de cor marrom, e sobre ele dois soldados tipo da idade média, porém, o que mais me chamou a atenção, foi que ambos os cavalos, não encostaram suas patas no solo terrestre, ficaram alguns palmos acima da crosta, como que levitando. E acordei com essa cena. Importante aqui frisar que, meu sonho, não é nada semelhante ao narrado em Apocalipse! Mas foi o meu sonho!
O que esse sonho está me fazendo pensar sobre mim?”
Nem todo sonho precisa ser imediatamente compreendido como revelação divina, ou prenúncios, mas, pode sim, ser uma informação, um alerta, uma mudança de vida. Há, inclusive, uma passagem em Eclesiastes que relaciona os sonhos à multiplicidade das preocupações:
“Dos muitos afazeres vêm os sonhos.”
(Eclesiastes 5,2)
Talvez esteja aí uma primeira chave para compreendermos essa experiência tão humana: há sonhos que nos inquietam porque carregamos muitas coisas dentro de nós; e há experiências que, pela fé, somos convidados a colocar diante de Deus em oração e discernimento.
Há manhãs em que acordamos de um sonho.
E há manhãs em que acordamos do silêncio.
Hoje foi assim.
O vento lá fora, alguns poucos passarinhos chilreando sobre os telhados vizinhos e aquele silêncio quase ensurdecedor fizeram-me sentar diante dos teclados e escrever.
Curiosamente, esta noite não sonhei.
E isso, para mim, é quase uma novidade, porque costumo sonhar com frequência.
Aliás, não sou eu quem afirma que sonhar seja simplesmente uma particularidade minha. Estudos sobre o sono e a psicologia mostram que sonhar faz parte do funcionamento normal do cérebro e está relacionado a processos importantes, como memória, emoções e elaboração de experiências vividas. Há, inclusive, estudos psicológicos que associam a atividade onírica à nossa vida emocional e ao processamento de conteúdos psíquicos. Uma vez tecendo comentário sobre um sonho que tive, minha irmã me disse: ___Maria, acho engraçado como você sonha e recorda de seus sonhos, eu penso que não sonho. Então lhe respondi: ____Sim, você sonha, todos nós sonhamos, só que algumas pessoas tendem a não se recordar de todos os sonhos que têm, e segundo a psicologia, isso é também normal.
Por isso, quando alguém diz: “Eu quase nunca sonho”, talvez não seja necessariamente que não sonhe; muitas vezes, pode simplesmente não se lembrar dos sonhos ao despertar.
No meu caso, porém, costumo lembrar-me de muitos deles — alguns tão intensos que permanecem comigo depois que acordo.
E talvez seja justamente por isso que a ausência de um sonho nesta noite tenha me feito lembrar de tantos outros... Sonhos.
Quem nunca acordou de um deles carregando uma sensação difícil de explicar?
Alguns desaparecem poucos minutos depois de abrirmos os olhos. Outros, entretanto, permanecem. Não sabemos exatamente por quê. Às vezes esquecemos a história, mas a emoção permanece. Outras vezes, uma imagem fica gravada na memória durante anos.
Foi assim com um sonho que tive há algum tempo.
E é sobre ele que quero refletir hoje: não para afirmar que foi uma profecia, nem para tentar decifrar aquilo que talvez pertença ao campo do mistério, mas para olhar para o sonho sob três perspectivas que podem dialogar entre si: o que a Bíblia nos diz sobre os sonhos, o que a psicologia pode nos ajudar a compreender e aquilo que permanece como mistério espiritual.
Por fim é certo que, não precisamos descobrir se o sonho foi uma profecia para reconhecer que ele produziu em nós uma pergunta.
Às vezes, o mais importante não é aquilo que o sonho “previu”, mas aquilo que ele despertou. Concorda comigo? Como são seus sonhos? Eles te surpreendem? Te colocam para pensar? Ou você se sente incomodado (a), ou até mesmo com medo, com sensações que algo pode acontecer? Nós seres humanos temos uma forte tendência de sofrer por antecipação, por inseguranças plantadas em nosso cotidiano, nem tudo é profecia, nem tudo é fantasmagórico, nem tudo é normal, ou paranormal, são apenas nossas emoções em constantes ebulições... São muitas informações chegando até nós, e isso pode nos confundir as "ideias" rs. Temos que aprender a reagir conosco mesmo, não acreditar em tudo que nos chega, é preciso sim, discernir, saber filtrar. Assim como chega conosco uma manhã com ventos, silêncio, passarinhos, luz solar, serenidade, emoções a burilar, é a vida a despertar...
Talvez seja assim também com alguns sonhos.
Vemos fragmentos.
Imagens.
Sensações.
Portais.
Cavalos.
Pessoas.
Luzes.
Planetas soltos no espaço.
Rochas
Rios, mares
Natureza
Às vezes até damos voos rasos e rápidos que nos dá frio no estômago.
E tentamos organizar tudo com a nossa limitada compreensão. Jesus, mexia muito com a forma de ser, pensar, agir, de seus discípulos, sempre colocava e coloca quem o estuda, meio que, um Mestre que nos põe pra pensar, questionar a nós mesmos, e as ações que os outros nos provocam.
- Mateus 10:29-31: "Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos." Esses versículos nos lembram da importância de refletir sobre nossos pensamentos e ações, buscando sempre o que é verdadeiro e bom.
Mas nem sempre precisamos transformar tudo em uma resposta.
Às vezes, o mistério também pode ser um convite à contemplação.
A fé não precisa transformar cada sonho em profecia.
E a razão não precisa transformar cada experiência espiritual em mera atividade cerebral.
Podemos simplesmente permanecer diante dela, com respeito e discernimento.
“Senhor, o que isso despertou em mim?”
Talvez essa seja uma oração muito mais fecunda do que:
“Senhor, o que isso vai acontecer?”
Porque uma pergunta procura prever o amanhã.
A outra procura transformar o hoje.
Foi uma profecia?
Não sei.
E talvez seja justamente aqui que eu precise ter cuidado.
Não considero que eu seja uma profetisa porque sonho.
Os sonhos fazem parte da experiência humana, e a própria Bíblia nos mostra que precisamos discernir aquilo que vivenciamos.
Também já tive sonhos acompanhados de vozes, imagens coloridas, e ou preto e branco, como um filme antigo, muito fortes e sensações que permaneceram depois que acordei.
Isso não significa, por si só, que sejam mensagens sobrenaturais.
Mas também não significa que eu deva simplesmente ignorá-los.
Posso observá-los.
Refletir sobre eles.
Pesquisar.
Rezar.
Discernir.
E, sobretudo, perguntar o que eles movimentaram dentro de mim.
Porque talvez a grande revelação de um sonho não esteja necessariamente no que ele nos mostra sobre o futuro. Até porque o futuro já é agora.
Talvez esteja no que ele nos revela sobre nós mesmos.
E aqui volto à manhã de hoje.
Esta noite não sonhei.
O que, para mim, foi uma surpresa.
Mas talvez o silêncio também tenha seus sonhos. Ou talvez, meu cérebro, minhas emoções, precisavam desse tempo de silêncio, de simplesmente nada a ser declarado.😊
Talvez hoje Deus não tenha precisado falar através de imagens enquanto eu dormia.
Talvez tenha bastado o vento batendo forte sobre meus telhados me acordando
Os passarinhos, do lado de fora de mim, chilreando, fazendo-se presentes:
— Oiê! Estamos aqui!
Ventos, passarinhos, anúncio de vida, vertentes que nos anima...
E foi assim, nesse instante, que outra lembrança me ocorreu:
São João Paulo II dedicou uma encíclica inteira a essa relação: Fides et Ratio — Fé e Razão. Nela, refletiu sobre a necessidade de que fé e razão caminhem juntas na busca da verdade.
Talvez seja justamente isso que tantas vezes tenha me tocado em suas homilias: ele não me convidava a sentir menos, mas a pensar também aquilo que eu sentia. Talvez por isso às vezes chegava até chorar, é que ele me colocava meio frente a um espelho...
E Jesus, se prestarmos bastante atenção aos seus ensinamentos, parece fazer algo muito semelhante com seus discípulos: despertá-los para a vida que os rodeava, para aquilo que acontecia diante de seus próprios olhos, no cotidiano, e lhes chamava a ter mais fé, os achava, homens de pouca fé. (Mateus 8:26)
Jesus não ensinava apenas para que seus discípulos acreditassem. Ele os fazia olhar, observar, perguntar, compreender, discernir. E é assim comigo, e talvez com você que me lê.
Talvez seja essa a ponte que hoje consigo perceber entre o sonho, a emoção, a fé e o discernimento racional.
E, pensando nisso, compreendo também que talvez eu mesma tenha, algumas vezes, tentado racionalizar demais a fé, quando o que João Paulo II nos propunha era algo muito mais profundo.
Não se trata simplesmente de ter uma “fé racional”.
Trata-se de permitir que fé e razão caminhem juntas, sem que uma precise eliminar a outra.
Porque fé e razão não se anulam.
Iluminam-se mutuamente na busca da verdade.
E talvez seja justamente nesse equilíbrio — entre aquilo que sentimos, aquilo que pensamos e aquilo que ainda não conseguimos compreender — que vamos, pouco a pouco, amadurecendo nossa maneira de viver, ser e de estar na vida.
E cá para nós, como é bom esse viver cheio de sonhos né não?
By MângelaCastro - 16/8/206

