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sábado, 19 de setembro de 2026

ENTRE A TRAVESSIA E A COMUNICAÇÃO

Psicologia, memória, espiritualidade e mistério conversando entre si.


Bom dia caríssimos!

Essa crônica é escrita para você, caro leitor (a),  e que cada um possa fazer sua própria travessia ao lê-la.

Sonho? Memória? Expansão da consciência? Talvez o mistério esteja justamente entre uma coisa e outra. 🌷

Veja bem, a Bíblia oferece uma rica tapeçaria de narrativas e ensinamentos sobre como Deus se comunica através dos sonhos.

Há sonhos que parecem apenas sonhos. Outros, entretanto, acordam conosco antes mesmo que abramos completamente os olhos. Não sei se são manifestações do inconsciente, lembranças reorganizadas durante o repouso, movimentos de uma consciência que se expande ou, quem sabe, pequenas experiências que ainda não aprendemos a compreender. Talvez sejam um pouco de tudo isso.

Nesta madrugada, encontrei-me caminhando pelo centro de uma cidade, acompanhada por uma mulher que eu não conseguia identificar, embora soubesse, dentro do próprio sonho, que era uma amiga. O trânsito estava meio caótico e nós permanecíamos paradas numa esquina, aguardando o momento mais tranquilo para atravessar.

Enquanto esperávamos, comecei a observar os ônibus.

Eram azuis, em dois tons, um mais claro e outro mais escuro. Vinham pela rua, aproximavam-se da esquina, faziam uma breve parada e depois viravam à direita, seguindo por outra via.

Então comentei com minha companheira de caminhada:

— Veja, estamos próximas de uma parada de ônibus. Por isso há tantos vindo por esta rua.

Do outro lado da esquina, na direção de uma via mais expressa, havia também algo parecido com uma oficina, cuja me chamou a atenção, dirigi meu olhar fixo para ela enquanto aguardava a travessia daquela rua movimentada, bom, nada demais, durante a semana o que mais fiz lembrar ao meu filho foi que precisávamos levar o carro para revisão, então, normal reacender minha memória durante o sonho, uma necessidade talvez que urge acontecer. Não consigo afirmar exatamente o que era, mas, no sonho, eu sabia que era uma oficina.

Talvez o detalhe não seja tão pequeno quanto parece.

Uma rua movimentada. Uma esquina. Ônibus seguindo suas rotas. Uma oficina ao lado.

E nós, paradas, esperando o momento certo para atravessar, e fazer algo mais acontecer  naquele cotidiano onírico.

Quantas vezes a vida também nos coloca assim?

Diante de caminhos que continuam passando diante de nós, enquanto esperamos uma brecha para seguir. Há momentos em que avançar imediatamente não é coragem; é apenas precipitação. Às vezes, é preciso observar o movimento, compreender a direção das coisas e esperar.

Até que atravessamos.

E, quase sem perceber como, já não estávamos mais na rua.

Eu me encontrava agora em um espaço semelhante a um teatro, como um grande anfiteatro. E havia chegado o momento de participar de uma apresentação.

Não seria apenas espectadora.

Era a minha vez.

Antes de descer em direção ao palco, porém, fiz algo curioso: entreguei minha própria bolsa, confiando-a, a um senhor sentado na última fileira e pedi que ele a segurasse por mim.

Era a bolsa que uso diariamente. De couro, colorida, uma bolsa de que gosto.

Por alguns instantes, deixei com outra pessoa aquilo que normalmente carrego comigo.

Talvez nossas bolsas carreguem muito mais do que objetos.

Carregam documentos, chaves, pequenos pertences, necessidades do cotidiano. Carregam, de certo modo, um pouco da nossa identidade prática. E, naquele sonho, justamente antes de participar da apresentação, eu a deixava para trás.

Como se fosse necessário entrar em cena sem carregar comigo tudo aquilo que pertence à vida cotidiana.

Desci pela rampa daquele anfiteatro.

Mas não cheguei exatamente ao palco.

Encontrei-me numa espécie de sala de coxia, nos bastidores, conversando com algumas mulheres.

E foi então que percebi que havia esquecido meu celular em casa.

Pedi o telefone de uma delas emprestado. O que de pronto ela mo emprestou.

Precisava ligar para minha mãe.

Minha mãe, entretanto, já partiu deste mundo.

Mesmo assim, dentro do sonho, eu sabia que ela certamente tentaria falar comigo. E, se não conseguisse, ficaria preocupada.

Ela era assim.

Preocupada.

Isto me faz pensar no quanto éramos parecidas.

Em casa há um hábito familiar, de que, quando o assunto é deveras preocupante, eles não me comunicam, pelo menos de imediato, o que me deixa as vezes "enfurecida" rs, porque sabem que acabarei me extrapolando da normalidade de simplesmente ouvir e não tentar fazer algo para que a situação melhore. A verdade é que com a passagem de nosso pai muito cedo, eu também amadureci muito cedo, e aprendi a ajudar minha mãe a "carregar sua cruz cotidiana".

E foi isso que mais me tocou quando despertei.

Eu não precisava telefonar para minha mãe para pedir alguma coisa. Não precisava contar-lhe uma novidade. Eu queria apenas avisá-la de que ficaríamos temporariamente sem comunicação, para que ela não se preocupasse.

Temporariamente sem comunicação.”

Curiosa expressão para alguém que já não pode atender ao telefone.

Ou talvez não seja tão curiosa assim.

Porque existem vínculos que mudam de linguagem, mas não desaparecem simplesmente porque deixamos de ouvi-los pela forma habitual.

A morte modifica a presença.

A saudade modifica a comunicação.

O tempo modifica a maneira como conversamos com quem partiu.

Mas aquilo que foi profundamente amado parece encontrar outros lugares para permanecer.

Talvez seja por isso que os sonhos sejam tão misteriosos.

Eles conseguem colocar no mesmo espaço aquilo que a razão separa: presente e passado, vivos e mortos, memória e imaginação, realidade e desejo.

Não sei se minha mãe estava “do outro lado” daquele sonho.

Não tenho como afirmar isso.

Mas sei que ela estava em mim.

E talvez isso já seja uma forma extraordinária de presença.

Pensei então em todo o percurso daquele sonho, cujo flashs momentâneos também vinha a visão de minha irmã, entrando no rol da minha preocupação com a comunicação. Eu sentia necessidade de avisá-las!

Primeiro, uma rua movimentada.

Depois, uma espera.

Em seguida, a travessia.

Os ônibus seguindo suas rotas.

Uma oficina.

Depois, o teatro.

A minha bolsa entregue a alguém.

A coxia.

A apresentação da qual eu deveria participar.

E, finalmente, a necessidade de estabelecer comunicação.

Talvez o sonho esteja falando de mudanças.

Talvez de caminhos.

Talvez de alguma parte de mim que esteja aprendendo a atravessar determinadas ruas da vida sem carregar tudo aquilo que sempre carregou.

Talvez a oficina seja apenas uma oficina.

Talvez os ônibus sejam apenas ônibus.

Talvez o teatro seja apenas a construção aleatória de uma mente que, durante o sono, reorganiza imagens, afetos e lembranças.

Mas também pode ser que exista alguma linguagem simbólica escondida em tudo isso.

Não uma profecia.

Não necessariamente uma mensagem sobrenatural.

Apenas aquela linguagem silenciosa com que, durante o repouso, nossa consciência às vezes conversa conosco, expandindo além de nós.

E há algo que me chama particularmente a atenção:

Eu não estava perdida.

Eu esperava para atravessar.

Eu atravessei.

Eu sabia que era minha vez de participar.

Eu deixei minha bolsa sob os cuidados de alguém.

Percebi que estava sem meu celular.

Procurei ajuda.

E encontrei uma maneira de comunicar-me.

Talvez seja esse o verdadeiro centro do sonho.

Não a perda da comunicação, mas a descoberta de que a comunicação pode assumir outras formas.

Nem sempre temos conosco aquilo que julgávamos indispensável.

Nem sempre conseguimos atravessar no primeiro momento.

Nem sempre entramos diretamente no palco.

Às vezes ficamos nos bastidores.

Às vezes precisamos deixar temporariamente nossa bagagem nas mãos de alguém.

E, mesmo assim, a vida continua nos conduzindo para o próximo lugar.

Quando despertei, minha mãe continuava onde sempre estará agora: na memória, na saudade e naquele lugar invisível onde guardamos aqueles que amamos. e minha irmã, meus irmãos, meu filho, por sua vez, continuam sendo companheiros de jornada enquanto por aqui estamos caminhando, apenas aguardando a travessia.

E fiquei pensando que talvez minha mente tenha encontrado uma maneira delicada de me dizer:

Há silêncios que são apenas silêncios.

Há distâncias que são apenas distâncias.

E há vínculos que, mesmo quando já não podem ser alcançados pelo telefone, continuam encontrando morada dentro de nós.

Talvez seja isso que alguns chamam de memória.

Talvez outros chamem de espiritualidade.

Talvez seja simplesmente amor.

Eu, particularmente, ainda prefiro deixar uma pequena porta aberta para o mistério.

Porque, quando se trata dos sonhos, talvez nem tudo precise ser explicado.

Algumas coisas podem simplesmente ser contempladas.

E, naquela madrugada, entre uma rua movimentada, uma travessia, uma bolsa deixada na última fileira de um anfiteatro sob os cuidados de alguém, ou não, e um telefone emprestado para falar com quem já partiu, ficou comigo uma certeza muito simples:

Nem toda ausência significa falta de comunicação.

Às vezes, apenas aprendemos a conversar por outros caminhos.

E Deus, concedeu também o caminho através dos sonhos, e a própria história evolutiva hominal nos confirma isto.

  • Joel 2:28Atos 2:17:
    ,Gênesis 37:5:,
    Gênesis 41:25: "
  • Gênesis 41:32: "O sonho foi duplicado duas vezes a Faraó é porque esta coisa é determinada de Deus, e Deus se apressa a fazê-la." 
  • Esses versículos mostram que, embora os sonhos possam parecer simples, eles têm um significado profundo e são um meio pelo qual Deus pode comunicar-se com a humanidade. A Bíblia nos ensina a buscar discernimento e sabedoria para interpretar os sonhos e a viver de acordo com a vontade de Deus. 

Paz e bem, e muitas saudades.

By MângelaCastro - 19/9/2026

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